Laphroaig, O Mágico de Oz e as Damas do Whisky

O que um digno apreciador de whisky faz quando é assolado pela gripe? Ele toma whisky, oras! Principalmente algum Laphroaig. Essa marca era vendida como medicamento nos Estados Unidos na época da Lei Seca (1920-1933). Por isso tomei o Laphroaig Select no último final de semana, quando estava gripado. Afinal de contas, quem sou eu para contestar ordens médicas?!

Degustação sob prescrição médica?

Mas esta crônica não é para falar sobre o controverso período de (aparente) abstinência de parte dos estadunidenses. Nesta, vou comentar sobre a harmonização do Laphroaig Select com o filme “O Mágico de Oz” (1939). Essa empreitada foi derivada da experiência narrada na última crônica. Contudo, hoje vamos calçar outros sapatos de rubis para caminhar por outros rumos, dentre eles, mulheres que fizeram história no cinema e no mundo do whisky. Comecemos pela excelente atriz Judy Garland (1922-1969), que interpretou a protagonista Dorothy Gale no filme em questão.

Judy Garland.
Dorothy Gale.

Judy também era cantora e, tendo recebido um Oscar especial (Prêmio Juvenil da Academia) por sua atuação como Dorothy, se tornou a primeira estrela-mirim de Hollywood com projeção internacional. Apesar desse sucesso, infelizmente sua trajetória foi marcada por diversos abusos sofridos devido à sua profissão[1]. É uma daquelas histórias trágicas e “glamourosas” hollywoodianas. O filme Judy: Muito Além do Arco-Íris (2019)[2], aborda sua biografia.

Note que sempre que menciono Judy e o filme, destaco o ano de 1939 de “O Mágico de Oz”. Isso porque outras obras cinematográficas anteriores adaptaram o clássico da literatura infantil “The Wonderful Wizard of Oz” (1900)[3]. Variações de um mesmo tema.  

Whiskies também são, bem basicamente, variações de um mesmo tema, no caso, variáveis da tríade de ingredientes água, grãos e fermento. Fato é que muita coisa é produzida e trabalhada – em um processo histórico de curta, média ou longa duração – até que se aperfeiçoe e se torne um clássico. Assim foi com o filme “O Mágico de Oz” e com a destilaria Laphroaig, conhecida e respeitada como uma das principais representantes dos whiskies turfados escoceses.

Whiskies turfados utilizam turfa (material vegetal decomposto presente no solo), que é queimada para secar os grãos de cevada e interromper (com o calor) suas germinações, processo esse chamado de “maltagem”. A secagem da cevada com fumaça de turfa gerará na bebida – após a fermentação do cereal seguida pela destilação – aromas e sabores que remetem à terra, iodo, fumaça, brasa, carvão, enfim, aos campos defumado e “medicinal”, como costumam dizer.

“Tijolos” de turfa secando ao Sol antes de serem queimados para secar a cevada em começo de germinação. Aqui começa a mágica dos whiskies turfados!

De fato, beber um Laphroaig é como degustar um hospital líquido! Parece bizarro pensar nisso, mas é excelente! Pelo menos para quem gosta do estilo turfado. Quem gosta, ama. Quem não gosta, odeia. Não há meio-termo. Como destaca o marketing da destilaria: “Unphorgettable”. Excelente termo: os Laphroaig são mesmo inesquecíveis!

“Rapaz… e não é que esse negócio é bom mesmo?“.
“Bom”? Sei não hein…

Também é inesquecível a propaganda[4] com outro ator talentoso, Willem Dafoe!

Pois bem, a história oficial da destilaria Laphroaig[5] remete, originalmente, aos irmãos Donal e Alexander Johnston, dois fazendeiros na ilha de Islay, na costa oeste da Escócia, e fundadores da destilaria em 1815. Mas vamos nos concentrar em uma mulher relacionada à destilaria, a escocesa Elizabeth Leitch Williamson (1910-1982), mais conhecida como Bessie Williamson.

O pesquisador Iain Russell[6] a descreveu em um texto como uma das “heroínas do whisky”. A alcunha vem da trajetória de sucesso de Bessie na Laphroaig. Entre 1934 e 1938 ela foi secretária de Ian Hunter (1886-1954), dono da destilaria desde 1927, e administradora do escritório da Laphroaig. Devido ao estado de saúde de Hunter desde 1938, Bessie passou a participar mais da gestão do negócio.

Bessie Williamson.
Bessie Williamson na Destilaria Laphroaig.

Em 1944 Hunter transferiu o controle da administração para ela e, em 1950, a D. Johnston & Co – empresa fundada pelos irmãos Johnston e dona da Laphroaig – tornou-se uma sociedade limitada, tendo Bessie como uma de suas sócias. Quando Hunter morreu em 1954, deixou todas as suas propriedades como herança para Bessie, inclusive a destilaria.

Há quem suspeite de um caso de romance entre Hunter e Bessie. Entendo isso como secundário, caso tenha mesmo acontecido. Fato é que ela foi uma mulher super competente nos negócios!

Bessie nasceu em Glasgow em 1910, formou-se em Artes pela Universidade de Glasgow em 1931, tornando-se professora e, depois, estudou secretariado e escritório. Essa última formação a levou com uma amiga para férias na Ilha de Islay no verão de 1934. Ela se candidatou para uma vaga temporária de datilógrafa (ou estenógrafa) na Laphroaig, tornando-se secretária e funcionária de confiança de Ian Hunter. Desde então ela marcou a história da destilaria, sendo reconhecida por sua boa administração em tempos difíceis – como na Segunda Guerra (1939-1945) -, por manter a qualidade do whisky, pela sua boa reputação entre os nativos de Islay por tê-los empregado na Laphroaig e pela sua atuação junto ao Instituto Rural Feminino Escocês.

Enfim, Bessie fez história ao se destacar em um universo majoritariamente masculino. Mas ela não foi a única “dama do whisky” a se destacar na indústria etílica de Islay.

Como informa Jim Murray no seu “O Mundo do Whisky” (1997), as irmãs Margaret e Flora MacDougall administraram a destilaria Ardbeg na década de 1850 e Lucy Ramsay dirigiu a destilaria Port Ellen entre 1892 e 1905. Ambas as destilarias também são famosas pelos seus whiskies turfados e defumados. Seria um estilo de preferência feminina? Seria a ilha de Islay uma descendente da lendária ilha das Amazonas?

O que todas essas mulheres tiveram em comum foi personalidade, coragem e profissionalismo. Deixaram sua marca. E gostaria de finalizar este texto comentando um pouco mais sobre o filme com uma interpretação favorecida pelo relaxamento proporcionado pelo Laphroaig Seletc. Focarei no enredo, não nos atributos técnicos inegáveis do clássico do cinema.

Tanto o filme como o livro original de O Mágico de Oz geram várias interpretações. Suas influências em obras artísticas de muitas linguagens demonstram isso. Mas eu entendo a obra como um despertar de ilusões: todos os personagens buscavam um objetivo acreditando que o mágico de Oz poderia lhes dar isso, mas ao fim, descobriram que tudo estava dentro deles ou com eles desde o começo, bastavam os estímulos certos: os sapatos de rubi de Dorothy, a coragem no Leão Covarde, o coração no Homem de Lata e o cérebro no Espantalho. Eles só precisavam percorrer uma jornada para perceberem isso, libertando-se de ilusões, ainda mais sendo o mágico de Oz um ilusionista que escondia seus truques atrás da cortina.

Talvez as damas do whisky mencionadas nesta crônica tenham despertado de algumas ilusões antes de deixarem sua marca na história e na qualidade da nossa bebida destilada favorita. Lembrando que há outras mulheres importantes nas indústrias da cerveja e do whisky. Futuramente escreverei mais sobre.

E talvez um dia eu escreva um livro chamado “As Damas do Whisky”.

Goiânia, 19 de fevereiro de 2025.


[1] Leia mais sobre aqui: https://veja.abril.com.br/coluna/em-cartaz/judy-garland-a-garotinha-de-o-magico-de-oz-que-virou-simbolo-do-metoo/

[2] Disponível no Prime Video: https://www.primevideo.com/-/pt/detail/Judy-Muito-Além-do-Arco-Íris/0QL8O1OP9ON1M9BM2UMPFZQXTH

[3] Há um curta-metragem de 15 minutos de 1910 (“The Wonderful Wizard of Oz”). E em 1914 houve duas adaptações que envolveram L. Frank Baum, autor do livro original: o filme “The Patchwork Girld of Oz”, produzido e roteirizado por ele e o filme mudo que ele produziu, intitulado “His Majesty, the Scarecrow of Oz”. Baum era um sujeito persistente.

[4] https://youtu.be/0rcgoJ3l71M?list=TLGG2I0fTEgyPGkxNzAxMjAyNg

[5] Disponível em: https://www.laphroaig.com/heritage

[6] Disponível em: https://scotchwhisky.com/magazine/whisky-heroes/9386/bessie-williamson-laphroaig/

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