Meu coração cervejeiro está de luto…
Abri as redes sociais e dei de cara com um post do Belgian Dash declarando o fim de suas atividades. Era meu pub preferido, point de encontro de amizades e um verdadeiro santuário de paz e reflexões existenciais em meio à balbúrdia urbana.
O Belgian Dash foi aberto aqui em Goiânia em 2006. Segundo Edson Carvalho Jr do site Viajante Cervejeiro, o Belgian foi o pub pioneiro da cidade na cultura de cervejas especiais e artesanais, contendo 4 chopeiras e uma média de 160 rótulos em sua adega[1].
Claro que hoje há outros pubs por aqui, mas nenhum com um acervo tão rico e um ambiente tão aconchegante e com músicas tão boas como o Belgian tinha. Nada como beber uma saborosa cervejinha gelada ouvindo um rockão antigo e um blues daqueles de reverberar no fundo da alma!
Comecei a frequentar o Belgian em 2014. A relação se desenvolveu a tal ponto que eu nem precisava mais fazer pedido. O garçom me via e perguntava:
– O de sempre?
Após minha afirmação ele trazia uma Eisenbahn de trigo e, minutos depois, uma porção de batatas fritas com bacon e queijo cheddar.
Foi no Belgian Dash que refinei meu gosto etílico, conhecendo e aprendendo a saborear boas cervejas, tentando entender como cada uma era fabricada, suas histórias e suas nuances de sabores.
O Belgian foi também um local que flagrou diferentes momentos da minha vida e onde experimentei muitos sentimentos, desde dores-de-cotovelo a comemorações de conquistas pessoais passando por insights relacionados a tudo que fermentava em minha mente e no meu corpo.
Goiânia agora perde muito do seu estilo. Vai ficar mais difícil superar este calor esturricante e estes dias trevosos pelos quais passamos. Enlutado, naturalmente associo esse fim à minha frase preferida de Jack Kerouac, expressa no seu belo e melancólico romance Tristessa (1960): “[…] a beleza das coisas deve estar no fato de terminarem”.
Um brinde ao Belgian Dash e a todas as histórias que ele viu, ouviu e possibilitou!
Goiânia, 09 de fevereiro de 2020.
*Pós-Escrito
Releio esta crônica hoje (13 de abril de 2026), enquanto configuro o site e a coloco como a primeira crônica, seguindo minha cronologia de escrita. Ela foi publicada originalmente nas minhas redes sociais pessoais e no antigo site de outro projeto meu, o História na Medina.
Me bateu uma saudade do Belgian Dash! E não lembrava que foi lá que comecei a degustar cerveja com consciência! Isso é um exemplo de como nossos textos também são fontes históricas sobre nós mesmos, nos lembrando de tempos e acontecimentos que nossa memória cotidiana vai engavetando e deixando pra lá.
Além disso, o trecho “estes dias trevosos pelos quais passamos” faz referência à pandemia da Covid-19 (2020-2023). Logo, a crônica serve também como uma testemunha de um tempo para além do meu tempo pessoal. Aqueles anos da pandemia foram sombrios, tristes e estranhos. Hoje, tenho a sensação de que não os vivi, mas estive lá (e sobrevivi) sem sombra de dúvidas.
Apesar do saudosismo e da estranheza de lidar com a memória de tempos difíceis, vamos seguir em frente porque ainda temos muito o que beber!
Em memória ao estabelecimento e à cultura cervejeira de Goiânia, seguem fotos do Belgian Dash coletadas do seu perfil oficial no Facebook.
Goiânia, 13 de abril de 2026.





[1] https://viajantecervejeiro.com.br/conheca-o-bar-pioneiro-em-trazer-cervejas-artesanais-para-goiania/