William Lawson´s, Elton John e a Estrada de Tijolos Amarelos

Estava em uma solitária tarde de domingo degustando um Jim Beam White Label enquanto fazia o almoço da semana. No decorrer do processo, veio a súbita ideia – sei lá de onde – de fazer uma degustação comparada entre o Chivas Regal 12 Anos e o Chivas Regal Extra 13 Anos à noite. Mas como vocês sabem, a mudança é a fonte da vida. E quando chegou o entardecer de caramelo, decidi trabalhar pelo notebook e mudar um pouco os planos.

Então veio outro plano repentino: degustar um William Lawson´s antes da comparação entre os Chivas, apenas e, tão somente, para fins de aquecimento. Sem grandes pretensões. Havia na garrafa apenas 1/4 de whisky. Mas, também de repente, ela surgiu interessantíssima na minha adega. Como costumo dizer: Pensamentos intempestivos de uma mente ébria.

E não é que o imprevisto foi o melhor presente daquele dia de solidão?

Blended whisky William Lawson´s.
Thanks, Mister William!

Após alguns meses de garrafa quase vazia, o William Lawson´s estava maravilhoso! O álcool menos agressivo e, apesar de a nota de ferrugem estar mais evidente, a maior presença da baunilha ajudou a equilibrar tudo! O bom e barato William Lawson´s virou meu companheiro da noite! Está aí um whisky que melhora com a oxidação.

E o Elton John do título desta crônica?

Ele também me acompanhou naquela noite por meio do filme biográfico “Rocketman” (2019), dirigido por Dexter Fletcher e estrelado por Taron Egerton, cuja performance é um espetáculo à parte!

Cartaz do filme Rocketman sobre Elton John.
Cartaz do filme.

Taron Egerton interpretando Elton John no filme Rocketman.
Taron Egerton interpretando uma lenda vida!

 Anos atrás conheci o talento de Elton John por meio da canção “Rocketman”, que também veio a mim em um contexto de solidão e me levou na mesma hora a escrever um poema sobre isso e a negritude. Tempos depois, esse poema conquistou o 3º lugar em um concurso regional de poesia.

No sábado anterior à parceria repentina com o William Lawson´s, eu conheci o álbum “Goodbye Yellow Brick Road” (1973), o 7º disco mais vendido do Elton John. E que discaço! Fui catapultado já nas primeiras faixas. Naquele mesmo dia pedalei 35 km pela cidade ouvindo essa pérola! Isso tudo me influenciou a ver o filme sobre o astro. E que filme!

Um clássico moderno!

É um musical? Em partes. Gosto de musicais? Não, mas abri uma exceção por ser o Elton John. E acertei em cheio, tal como na escolha pelo William Lawson´s! O filme faz jus à criatividade de Elton ao representar as memórias e raciocínios do cantor-pianista em termos musicais. Suas melodias e as letras do seu amigo Bernie Taupin são os meios pelos quais o cantor dialoga com suas lembranças e pensa sua vida repleta de desejos, medos, dúvidas e demais motores humanos.

O contato constante do John adulto com seu eu-criança por meio de lembranças e imagens motivadas por suas vivências no presente coloca uma camada de psicanálise no filme, tornando-o ainda mais interessante e comovente. E por falar nisso, a abertura da obra é um show à parte em termos de imagens simbólicas e de quebra de expectativas. Vemos Elton, vestido de demônio vermelho, adentrando em um ambiente de luz enquanto avança ao que parece ser um show… Mas na verdade é uma reunião dos Alcoólicos Anônimos (AA). E esse local de desabafos e confissões é o lugar-narrativo básico do filme.

Taron Egerton interpretando Elton John no filme Rocketman.
Elton, The “Devil”.

Nesse sentido, pensando em um filme com várias camadas, ele harmonizará com vários whiskies, mesmo com os mais simples como o William Lawnson´s, blended scotch de entrada (standard) da marca que pertence ao grupo Bacardi desde 1993. A receita do William inclui whiskies de grãos de perfil frutado e single malts, dentre os quais o coração desse blend, o Glen Deveron, produzido pela destilaria MacDuff, no condado escocês de Banffshire. Inclusive Elton é representado no filme tomando whisky – e outras cositas -, mas nenhuma marca é evidenciada. 

Já o coração do filme “Rocketman”é o mesmo da canção e do álbum “Goodbye Yellow Brick Road”: o retorno a um lugar seguro. Após tanto sucesso, aventuras e dependências químicas, Elton é retratado como alguém em busca de uma zona de conforto saudável e há muito tempo perdida. O título da canção e do álbum faz referência à estrada de tijolos amarelos de “O Mágico de Oz”, filme de 1939 dirigido por Victor Fleming e baseado no livro de 1900 de L. Frank Baum intitulado “The Wonderful Wizard of Oz”.

Cartaz do filme O Mágico de Oz de 1939.
Cartaz do Filme O Mágico de Oz (1939).
Livro O Mágico de OZ.
Capa do Livro The Wonderful Wizard of Oz (1900).

No filme, a estrada de tijolos amarelos é a rota que leva à Cidade das Esmeraldas. A protagonista, Dorothy, precisa ir até essa cidade para encontrar o mágico de Oz e voltar para sua casa no Kansas. Pode-se entender do álbum e do filme “Rocketman” que a Terra de Oz de Elton era o tumultuado mundo de excessos da fama. Percorrer sua própria estrada de tijolos amarelos representa o retorno à calmaria e à conexão consigo mesmo.

Em sua resenha do álbum[1], o jornalista André Fernandes reproduziu uma fala do letrista Bernie Taupin sobre essa obra-prima da dupla britânica: “‘Goodbye Yellow Brick Road’ é um álbum cinematográfico. A letra da faixa-título diz que quero deixar Oz e voltar para a fazenda. Acho que este ainda é meu modus operandi nos dias de hoje. Não me importo de sair e fazer o que todo mundo estava fazendo, mas sempre tive que ter uma saída de emergência”.

Portanto, a história de Elton – contada no filme de forma bem menos padronizada e higienizada e bem mais criativa do que outras cinebiografias de músicos -, enfatiza o desejo de voltar à segurança, seja isso um lugar, um tempo, um sentimento ou tudo isso junto. Degustado especialmente naquele dia, o William Lawson´s então se tornou para mim uma escolha ou uma casualidade segura: não é complexo nem difícil, mas sim rotineiro, agradável e bem-vindo. É um whisky surpreendente em sua simplicidade e falta de pretensão!

Comentei tudo isso com minha psicanalista, mas falando também de algo que realmente chamou minha atenção nesse processo todo: é possível uma dupla interpretação sobre a estrada de tijolos amarelos. Na canção e no álbum de Elton há o “adeus” a esse caminho. Interpreto que esse adeus é ambíguo: pode ser tanto a conclusão da caminhada que levou ao fim da estrada e o consequente retorno para casa ou o adeus à estrada sem nem mesmo tê-la percorrido, representando assim a desistência de voltar para algum lugar seguro. Tem sentido para vocês?

A resposta varia, pois as metáforas e os símbolos são interpretados de forma única e subjetiva por cada pessoa. Quanto a mim, vou brincar com os dois significados, voltando a percorrer a estrada para degustar novamente o seguro e agradável William Lawson´s standard, mas também dando adeus a esse retorno para experimentar outras edições da marca, como o William Lawson´s 13 Anos e também o seu single malt-coração, o Glen Deveron (ou The Deveron) em suas versões de 10, de 16 e de 20 anos. Ainda terei que caminhar por estradas com tijolos de diferentes cores para chegar até eles. 

Goiânia, 14 de fevereiro de 2025.


[1] Disponível em: https://igormiranda.com.br/2021/10/elton-john-goodbye-yellow-brick-road-obra-prima/

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